História de Professor
Autor: Maria Tamires Almeida Silva
Março de 2004,
turma B do Supletivo da Paulo Freire – totalmente avessa ao princípio
filosófico do teórico-, num bairro periférico de Marauê. E lá estava eu,
professora recém formada, cheia de sonhos, projetos mentalmente estruturados e uma
turma antagonista aos meus desejos de transformação –posto revolução- do ensino
minguado, débil e todos os adjetivos inferiores. Num prévio diagnóstico
institucional percebi que o problema na educação não era decorrente apenas dos
alunos, mas de um conjunto de fatores que contrariavam a minha ideologia,
começando pelo regimento sistemático escolar.
Naquela noite
entrei na sala no horário pré dito pelas regras, aquele frio na barriga e a
ansiedade também não fugiram a regra, deparei-me com uma realidade incomum que
me arremessou – espiritualmente- contra a parede, registrei cada centímetro da
sala, lado direito: alunos jogando dominó, -apostando drogas e álcool- lado
esquerdo grupo de hip hop cantando músicas de apologia ao crime, meninas
aparentemente menores com vestidos curtos, brincos extravagantes e mascando
chicletes de uma forma incomum.
Eu entrei... E
eles nem notaram, o meu cérebro e coração correram a mil por hora, e aquela
total falta de respeito com a minha posição profissional – professora- me
deixou fora do ar por alguns segundos, depois me sentei no birô e me pus a
observar aquela realidade – o meu diagnóstico foi posto como “alunos
desestimulados” que observam as salas de aula como um meio de obter um
certificado de conclusão - e só, -não os culpei por isso- pois foi o que
aprenderam. Os minutos que passei observando-os trouxeram a tona os conselhos
que recebi dos professores- uma espécie de manual de sobrevivência na selva- as
vozes deles soavam como estrondos que me empurravam para o tradicionalismo
gritante, mais que isso, para o não cumprimento da minha função como
professora. Eles não acreditavam no potencial dos alunos, não enxergavam
habilidades e nem trabalhavam o desenvolvimento de aspectos cognoscitivos, mas
a minha sensibilidade captava muitas qualidades que eles possuíam e o meu
pensamento logosófico abraçava a crença da superação humana e a valorização da
existência.
Finalmente
o sinal tocou , assim como me tocou aquele diagnóstico parcial. Sair da sala com
a certeza de que mais que nunca deveria abraçar a função de semeadora e não de
praga. No dia seguinte cheguei com um rádio tocando “Os ratos” – Banda de Hip
Hop- com isso chamei a atenção de todos, entrei na realidade deles, olhei para
cada um e lancei um discurso que certamente mexeu com o psicológico -chocou- , fiz com
que se sentissem importantes, com direito a opinar, discutir, produzir...
Enfim, dei-lhes sentido prático, uma nova abordagem metodológica - sem o engessado tradicionalismo integral -, e pela primeira vez eles assistiram a uma aula sem reclamar- Só um pouco
(risadas), mas entenderam o recado, morô?!.
Com o passar do tempo já me sentia professora -aluna- da turma - aprendi a respeitar diferenças sociais e intelectuais e não tornei-as obstáculos para justificar um possível fracasso, converti-as em pontos positivos e explorei-os, Em suma, ensinar é um laboratório de pesquisas, diagnósticos e ações, e no ato de fazer precisamos escolher não o que é aparentemente cômodo, mas o que é justo - dentro do conceito mais idealista possível. Desenvolvi projetos educacionais que trabalhavam as habilidades que
eles possuíam, acabei descobrindo grandes poetas e construir apaixonados pela
Gramática.
Daniel era um
ótimo compositor, Talita uma excelente cantora, Danilo um extraordinário beat
Box, Marcos um desenhista habilidoso, Sandro um DJ que agitava a galera, e eu
reunir todos e formamos uma equipe de “aulas Show” (consistia-se em trabalhar os aspectos da produção de textos e compreensão da Língua Portuguesa de forma lúdica, levar as salas de aula a reflexão moral e cívica através das artes em suas diversas manifestações (música, pintura, desenho, literaturas)), e um adicionava em seu
acervo de conhecimento as habilidades que o outro possuía, fazendo com que
todos vivessem em sintonia e ampliassem o que sabiam. Juntos, formamos a batida
perfeita. Essa ideia gerou vários títulos e contribuiu para a formação social e
psicológica da turma B, a gigante pouco notável.
Meses após o
tão sonhado e merecido reconhecimento, sofri um acidente automobilístico, perdi os movimentos
das pernas e tenho uma paralisia facial, mas as minhas mãos continuam
trabalhando, hoje, não sou atuante nas salas de aula, na verdade tive apenas algumas
turmas, mas não deixei de ser educadora, tenho a função de transpassar uma filosofia
– um ideal que deu certo. Se todos os educadores trabalhassem em prol da transformação
educacional e tivessem a sensibilidade para perceber qualidades onde poucos
enxergam, e desenvolvessem a habilidade de polir pedras preciosas, certamente
encontrariam muitos Marcos e Sandro. Produziriam pensadores, construtores de projetos de sucesso ao
invés de reprodutores de conceitos falidos. Eu acreditei no potencial dos meus
alunos, exerci a minha proficiência como educadora, fiz um diagnóstico otimista
acerca de uma turma com alunos vistos como irrecuperáveis e transformei-os em
artistas.
linda história me fez lembrar a disciplina psicologia do aprendizado aonde utilizei de alguns teorias para desenvolvimento do meu trabalho acadêmico,que era assisti um filme e empregar teorias,foi legal, o nome do filme era (VEM DANÇAR)
ResponderExcluirPARABÉNS LINDO TEXTO.