Carlos Drummond de Andrade

"Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar"
(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

História de Professor: Marginais ou artistas - Como você ver?



História de Professor


Autor: Maria Tamires Almeida Silva


Março de 2004, turma B do Supletivo da Paulo Freire – totalmente avessa ao princípio filosófico do teórico-, num bairro periférico de Marauê.  E lá estava eu, professora recém formada, cheia de sonhos, projetos mentalmente estruturados e uma turma antagonista aos meus desejos de transformação –posto revolução- do ensino minguado, débil e todos os adjetivos inferiores. Num prévio diagnóstico institucional percebi que o problema na educação não era decorrente apenas dos alunos, mas de um conjunto de fatores que contrariavam a minha ideologia, começando pelo regimento sistemático escolar.
Naquela noite entrei na sala no horário pré dito pelas regras, aquele frio na barriga e a ansiedade também não fugiram a regra, deparei-me com uma realidade incomum que me arremessou – espiritualmente- contra a parede, registrei cada centímetro da sala, lado direito: alunos jogando dominó, -apostando drogas e álcool- lado esquerdo grupo de hip hop cantando músicas de apologia ao crime, meninas aparentemente menores com vestidos curtos, brincos extravagantes e mascando chicletes de uma forma incomum.
Eu entrei... E eles nem notaram, o meu cérebro e coração correram a mil por hora, e aquela total falta de respeito com a minha posição profissional – professora- me deixou fora do ar por alguns segundos, depois me sentei no birô e me pus a observar aquela realidade – o meu diagnóstico foi posto como “alunos desestimulados” que observam as salas de aula como um meio de obter um certificado de conclusão - e só, -não os culpei por isso- pois foi o que aprenderam. Os minutos que passei observando-os trouxeram a tona os conselhos que recebi dos professores- uma espécie de manual de sobrevivência na selva- as vozes deles soavam como estrondos que me empurravam para o tradicionalismo gritante, mais que isso, para o não cumprimento da minha função como professora. Eles não acreditavam no potencial dos alunos, não enxergavam habilidades e nem trabalhavam o desenvolvimento de aspectos cognoscitivos, mas a minha sensibilidade captava muitas qualidades que eles possuíam e o meu pensamento logosófico abraçava a crença da superação humana e a valorização da existência.
            Finalmente o sinal tocou , assim como me tocou aquele diagnóstico parcial. Sair da sala com a certeza de que mais que nunca deveria abraçar a função de semeadora e não de praga. No dia seguinte cheguei com um rádio tocando “Os ratos” – Banda de Hip Hop- com isso chamei a atenção de todos, entrei na realidade deles, olhei para cada um e lancei um discurso que certamente mexeu com o psicológico -chocou- , fiz com que se sentissem importantes, com direito a opinar, discutir, produzir... Enfim, dei-lhes sentido prático, uma nova abordagem metodológica - sem o engessado tradicionalismo integral -, e  pela primeira vez eles assistiram a uma aula sem reclamar- Só um pouco (risadas), mas entenderam o recado, morô?!. 
         Com o passar do tempo já me sentia professora -aluna- da turma - aprendi a respeitar diferenças sociais e intelectuais e não tornei-as obstáculos para justificar um possível fracasso, converti-as em pontos positivos e explorei-os, Em suma, ensinar é um laboratório de pesquisas, diagnósticos e ações, e no ato de fazer  precisamos escolher não o que é aparentemente cômodo, mas o que é justo - dentro do conceito mais idealista possível. Desenvolvi projetos educacionais que trabalhavam as habilidades que eles possuíam, acabei descobrindo grandes poetas e construir apaixonados pela Gramática.
Daniel era um ótimo compositor, Talita uma excelente cantora, Danilo um extraordinário beat Box, Marcos um desenhista habilidoso, Sandro um DJ que agitava a galera, e eu reunir todos e formamos uma equipe de “aulas Show” (consistia-se em trabalhar os aspectos da produção de textos e compreensão da Língua Portuguesa de forma lúdica, levar as salas de aula a reflexão moral e cívica através das artes em suas diversas manifestações (música, pintura, desenho, literaturas)), e um adicionava em seu acervo de conhecimento as habilidades que o outro possuía, fazendo com que todos vivessem em sintonia e ampliassem o que sabiam. Juntos, formamos a batida perfeita. Essa ideia gerou vários títulos e contribuiu para a formação social e psicológica da turma B, a gigante pouco notável.
Meses após o tão sonhado e merecido reconhecimento, sofri um acidente automobilístico, perdi os movimentos das pernas e tenho uma paralisia facial, mas as minhas mãos continuam trabalhando, hoje, não sou atuante nas salas de aula, na verdade tive apenas algumas turmas, mas não deixei de ser educadora, tenho a função de transpassar uma filosofia – um ideal que deu certo. Se todos os educadores trabalhassem em prol da transformação educacional e tivessem a sensibilidade para perceber qualidades onde poucos enxergam, e desenvolvessem a habilidade de polir pedras preciosas, certamente encontrariam muitos Marcos e Sandro. Produziriam pensadores, construtores de projetos de sucesso ao invés de reprodutores de conceitos falidos. Eu acreditei no potencial dos meus alunos, exerci a minha proficiência como educadora, fiz um diagnóstico otimista acerca de uma turma com alunos vistos como irrecuperáveis e transformei-os em artistas.
 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Caixinha de lembranças



  
Saudade do tempo de criança
Do cheiro da infância
Dos sonhos, dos medos, das loucuras
Saudade dos passeios em família,
Das armadilhas que a inocência cria
Das feridas que o abraço cura

Saudade de correr na chuva
Das brincadeiras populares
Da vaidade sem forma
E de como era bom não saber as horas

Saudade da adolescência
Dos amigos que conquistei
E daqueles que nunca conheci
Saudade das fugas da escola
Dos castigos, das histórias
Saudade de tudo que vivi

Queria poder voltar no tempo
E reviver os meus pecados e angelitudes
Mas a vida não passa troco
O que eu preciso viver está aqui – nesse instante

Quero seguir e fazer tudo novo
Quero novas cores e novos rostos
Quero lembrar do passado com muito carinho
Quero deletar a palavra sozinho
Quero fazer tudo que nunca fiz
A regra de hoje é viver e ser feliz

26/07/2013

sábado, 13 de julho de 2013

As notas musicais da vida



O som da vida
É a vontade da alma
Viver é sair do dó
Não seguir de ré
Não dormir no mi
É fazer o que quiser

Viver é seguir o Sol
E, sem La-ra-ra-ra
Considerar o si
Viver é se amar
E ser feliz.


 


 




HOMENAGEM A SERGIPE











Sergipe
Cenário da minha história
Solo de Atalaia
“Avô” de Zé Peixe à Beira mar
Cá, canta os poetas, os boêmios e o papagaios
Cá, canta os Xocós e os Tupinambás

Sergipe
Berço de Ilha das Flores, Neópolis e Propriá
Pai da quadrilha ao pé de serra, dos barcos de fogo à cultura de Laranjeiras
Aqui a festa não pode parar

Essa terra tem de tudo
Coco, laranja, caju e rico matuto
Tudo que plantar dá
Arte, cultura, riqueza
Artistas com muita destreza e fineza
Rendeiras, escritores, sereias, Sapateiro Marajá
Tem Bispo, Imperador, Santos e Moribundos
Tem até guerreiros, quilombos e Redutos
Essa é a terra dos anjos
Melhor lugar para se morar

Sergipe
Pai de Aracaju
Filho de “Curuçu”
Protegido por Iemanjá
Aqui é a terra do mundo
Quem quer ser feliz vem prá cá.   
(26.01.2012)

O SENTIDO DA POESIA É A ENERGIA DO POETA



O que eu escrevo nem precisa ter sentido
Apenas sentimento
Nem precisa ter contexto
Apenas palavras
Nem precisa ser bonito
Apenas ser meu momento
E mais uma vez pergunto – Para onde vai esse meu pensamento?
Agora estou na Grécia Antiga no tempo de Sócrates e os sofistas
Na margem da verdade e dos trogloditas
A beira duma loucura sem Ás
E lá está uma parte de mim – aquela que pensa
A outra tá cá dentro esperando desencarnar
Como regredi a ponto de esquecer quem sou
Como é difícil recomeçar sem identidade
É uma amnésia virtuada por uma memória adormecida  - sem sonhos ou lapsos
E quem sou não sei.
Tantas incertezas me condenam
Tantas certezas me absolvem
Tantas mentiras me atraem
Aff! Quanta desordem

(17/07/2012)