Carlos Drummond de Andrade

"Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar"
(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Crítica dos 22 anos



Reflexão paralela

Passei dos 20,
Passei dos 80
Passei da graduação obrigatória
Do primeiro presidente negro
Da primeira mulher na presidência do Brasil
Passei pelos amores e armadilhas
Conheci muita gente interessante
Passei pela fase meio Cazuza, meio Renato, meio Ana, meio Rita, meio eu
Passei pelo ensino médio – Sem glória
Passei na faculdade e não fiz a minha formatura
Formei-me nas letras e enformei todo meu desejo de ensiná-las
Passei pelos 21 e não fiz nada
Ainda lembro dos meus desejos de adolescente e da minha preocupação em mudar o mundo
Ainda lembro dos sonhos jovens – hoje caducos
Ainda lembro das músicas embalando o meu sono
Ainda lembro do tempo em que o pai me levava a escola
Ainda lembro do meu primeiro dia de aula.
Não lembro dos meus primeiros passos
Não recordo a minha primeira gargalhada
Ou a primeira palavra que fez sentido
Não lembro da primeira vez que entendi o sentido das horas
Não lembro de muita coisa que vivi,
Mas as que não vivi vivem cá dentro - acesas como brasas
Aprisionadas, esperando a hora certa - que nunca chega.
Cheguei aos 22 – Hora de tirar a carta
Nem sei dirigir a minha vida, imagine...
É a hora de trabalhar, passar mais tempo longe de casa
Esquecer os vícios e algumas virtudes
É hora de se ajustar as normas técnicas
É hora de seguir a risca e andar na rota dos melhores
É hora de ser o que os meus pais sonharam
É hora de viver "robotomizado"
É hora de entender o sentido do relógio
É hora de ver o efeito das horas
É hora de aproveitar o tempo que resta
É hora de esquecer as perguntas que encomodam – Eles dizem nas entrelinahas
É hora de esquecer a filosofia - Esquecer quem somos
Esquecer por que viemos ou regressamos
As horas roubam a nossa juventude gradualmente
Consomem os nossos fluídos energéticos sem trilha sonora – sem DÓ
E tudo que resta são os bônus do conhecimento que conquistamos
O que aprendemos é o que nos torna mais leves – mais livres.
Mais Nobres, mais pobres ou mais vagabundos.
 
12.02.2013

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